“Gosto de dizer uma frase que, segundo a qual, o documentário talvez seja a única arte na qual cada elemento ético serve como elemento estético e vice-versa.” É deste modo como Breno Moreira, diretor da série documental da iniciativa C&A Fashion Futures, explica o conceito por trás do projeto. A produção foi exibida durante a segunda edição do evento, realizada em 24 de novembro, na Biblioteca Parque Villa Lobos – o episódio mostrado retratava a economia circular, que foi o principal assunto da roda de conversa realizada no dia.

Para Moreira, o processo criativo para a produção do projeto estava refletido em como a sustentabilidade esteve presente quadro a quadro, durante todo o processo de criação do documentário, participando de cada etapa de gravação, seja no conceito para capturar a essência de cada entrevista para o doc, seja nos elementos que compunham o set montado pela Capuri, produtora que elabora a série e da qual ele é um dos sócios ao lado de Thiago Mascarenhas e Eduardo Rezende.

Para se ter uma ideia, o pessoal da produtora não leva copos plásticos para o set de filmagem – “uma pessoa demora cinco minutos para beber água e são necessários 500 anos para isso se decompor” -, ao passo que o pessoal da produtora se preocupa em oferecer cardápio natural, com opções vegetarianas e veganas, por exemplo. E isso não se trata de uma iniciativa aleatória, mas sim de parte da filosofia da Capuri e, como consequência, do modo como Breno vê o mundo. “Por exemplo, tenho a minha horta em casa e planto a minha própria comida. Acredito que tento levar para a produtora um pouco da ideologia que eu e os meus amigos temos, e o modo como a gente filma é repercutido na tela.”

Dá para dizer que, sim, a vibe da série documental do C&A Fashion Futures dialogou demais com a verve do evento, seja pelo conteúdo exibido para o público, seja pelo clima e pelos detalhes relativos aos bastidores. Melhor: foi a representação audiovisual da mensagem que a organização quis transmitir a quem o prestigiou.

Corte sob medida

Durante o primeiro episódio da série documental do C&A Fashion Futures, Breno e a equipe de produção optaram por filmar o primeiro episódio com câmeras de películas de 35 mm e de 16 mm. A questão estética foi secundária dentro desse cenário, pois os caras queriam filmar os takes sem haver cenas excedentes – e essa é uma marca de trabalhos feitos com câmeras digitais.

“Este é um documentário feito respeitando as coisas como elas são. A gente não reproduziu nenhuma cena que não acontecesse se não estivesse presente na câmera e não pediu para nenhuma sequência ser repetida mais de uma vez. Isso tem relação com a vida e com a memória, pois a gente não consegue armazenar tudo. A gente até se lembra das coisas, mas só com profundidade do que é mais importante nas nossas vidas”, pontua Moreira.

Consciência filmada

O pessoal que assistiu ao segundo episódio da série durante o C&A Fashion Futures sacou a mensagem por trás do doc e percebeu como o tema é importante e urgente – além de falar muito mais alto do que o outfit descolado, é claro.

E se foco do documentário era mostrar projetos inspiradores para colocar os hábitos de consumo em perspectiva e tomar novas atitudes, o objetivo foi alcançado. “A gente está mostrando pessoas que fazem isso como ofício, que vivem e trabalham todos os dias para isso. Por exemplo, os pneus que as meninas da Revoada transformam em bolsas poderiam acumular água e causar dengue e outras doenças. Mas essas pessoas também consomem e nós também consumimos, e quando escolhemos uma roupa, queremos dizer alguma coisa e dar uma mensagem ao mundo. O filme tem como papel mostrar como as coisas são de verdade e tentar gerar no espectador algum tipo de questionamento sobre os seus próprios hábitos”, pontua o diretor.

Por fim, ao ser questionado sobre o que entendia sobre economia circular, Moreira viu-se em um lugar diferente do habitual – afinal, foi ele quem perguntou isso para a galera retratada no projeto. E, segundo ele mesmo, foi “difícil responder”, mas justamente por sair do papel de entrevistador para entrar no de entrevistado.

“Acredito que a gente deve tentar governar o máximo que podemos de nossas vidas. Acho que as minhas escolhas são um pouco circulares a partir do momento em que posso ter uma composteira em minha casa, onde todo o lixo orgânico [gerado lá] vira adubo para todos os alimentos que produzo.” E essa lógica é estendida à filosofia da Capuri: “a gente não tem excesso de nada, até a maneira como filmamos. A gente filma exatamente o que precisa para fazer o filme e, tendo as imagens necessárias, está pronto, bonito e pensado. E a gente chega à ilha de edição sabendo qual filme quer fazer”, completa Breno Moreira.